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Antoninho Marmo Trevisan: Contador - professor e empresário

A Medalha Mérito Contábil João Lyra é considerada a maior honraria da classe contábil brasileira. Ela é concedida a cada quatro anos, durante a solenidade de abertura do Congresso Brasileiro de Contabilidade (CBC). O profissional ilustre que foi escolhido pelo Sistema CFC/CRCs para receber a Medalha, em 2020, é o contador Antoninho Marmo Trevisan, profissional conhecido no País pela sua história como contador e fundador de empresa de auditoria e de escola de negócios, além de profissional com desenvoltura e influência que extrapolam a área contábil.

Trevisan, como é mais  conhecido,  receberá  a  Medalha  no 21º CBC, a ser realizado em Balneário  Camboriú  (SC),  em  solenidade agendada para o dia 15 de novembro deste ano. O evento será aberto nessa  data  e  terá  programação até o dia 18 (saiba mais aqui).

Instituída  durante  reunião  Plenária do CFC, em 20 de agosto de  1976,  a  Medalha  Mérito  Contábil João Lyra foi entregue, pela primeira vez, no X Congresso Brasileiro de Contabilidade (CBC), em  Fortaleza  (CE),  realizado  de  21 a 26 de novembro do mesmo ano. Na ocasião, Hilário Franco, Ulisses  Celestino  Góes  e  Zilmar  Bazerque de Vasconcellos foram os profissionais homenageados com a outorga, que passou a ser entregue em todos os CBCs seguintes.

A Resolução CFC n.º 440/1976 – alterada pela n.º 1.043/2005 – estabelece que aqueles a serem agraciados com a Medalha serão escolhidos pelo CFC, por maioria absoluta,  entre  os  nomes  com  maior número de indicações feitas pelos  Conselhos  Regionais  de  Contabilidade.

Na entrevista a seguir, Trevisan agradece a escolha do seu nome, fala sobre a honra de receber a Medalha  e  conta  um  pouco  da  sua vida profissional, refletindo sobre momentos especiais em que a contabilidade conquistou o seu coração e calçou o seu caminho. “A contabilidade me permitiu ser tudo o que eu quis”, afirma.

RBC – O sr. foi escolhido pelo Sistema CFC/CRCs para receber a Medalha Mérito Contábil João Lyra, durante o 21º Congresso Brasileiro de Contabilidade (CBC), que vai ocorrer de 15 a 18 de novembro de 2020, em Balneário Camboriú (SC). Como o sr. se sente por ser homenageado com a maior honraria da Contabilidade brasileira?

Antoninho Trevisan – Ser homenageado com a Medalha Mérito Contábil João Lyra aumentou a minha responsabilidade. Uma coisa é você passar mais de 50 anos da sua vida como contador; outra coisa é você continuar a ser contador, tendo recebido esta Medalha, porque considero que, além de uma honraria, trata-se de um reconhecimento o qual preciso retribuir à classe. Ainda que eu possa ter sido escolhido pelo que fiz pela contabilidade, acho que tenho muito por fazer. Sobretudo, sou imensamente grato porque esta Medalha é concedida por todos os meus colegas, dos 26 estados e do Distrito Federal, dos 27 Conselhos Regionais de Contabilidade (CRCs), e eu presto uma homenagem a todos eles que me escolheram e, claro, também ao CFC e aos conselheiros que homologaram a indicação.

RBC – Sobre os Congressos Brasileiros de Contabilidade (CBCs), que são realizados a cada quatro anos, pelo Conselho Federal de Contabilidade e entidades parceiras, qual a sua opinião sobre a importância de os profissionais participarem desse evento?

Trevisan – Os Congressos são momentos mágicos de encontro com os colegas, os quais participam aos milhares, vindos de todo o Brasil, e com quem você pode fazer uma rede de contatos e colaboração. Esses eventos também permitem que você possa se apresentar, que possa expor o que pensa. Eu sempre tive um princípio, em todos os Congressos a que fui, eu tinha perguntas a fazer e também procurava contribuir com teses, palestras ou debate. O Congresso Brasileiro de Contabilidade é o grande momento, a consagração da participação profissional e a maneira pela qual nós podemos honrar o diploma que recebemos, o Conselho do qual participamos e, sobretudo, dar valor à comunidade e à profissão contábil.

RBC – Como o sr. se sente após mais de 50 anos de dedicação à profissão? O que o sr. poderia destacar de mais positivo que encontrou na profissão que escolheu?

Trevisan – Tenho mais de cinco décadas de atuação na contabilidade e, em 2020, completo 50 anos do início da minha carreira como auditor, que começou exatamente em 12 de maio de 1970. Nesse dia, comecei minha carreira, curiosamente, por mero acaso. Eu estava acompanhando um colega que ia prestar um concurso na Price Waterhouse (na época ainda não era PwC) e, enquanto eu aguardava, a secretária perguntou se eu não iria preencher a ficha de inscrição. Eu tinha 20 anos e disse que já possuía um emprego, mas perguntei o que fazia uma firma de auditoria – eu não tinha a menor ideia! Ela me explicou e eu achei que seria interessante, especialmente porque permite ao profissional conhecer tantas corporações, empresas, entidades e países. Preenchi a ficha, consegui o emprego e acabei sendo sócio da firma alguns anos depois. Outro fato curioso, do qual me orgulho, foi ter sido trainee na Price e na KPMG, porque, naquela época, ambas compunham o mesmo nome no Brasil (Price Waterhouse Peat Company) – o Peat tornou-se mais tarde o “P” da KPMG. Curiosamente, sempre olhei a contabilidade  como  uma  profissão  das artes. Quando estudei o método das Partidas Dobradas e descobri que Frei Luca Pacioli era amigo, parceiro e conselheiro de Leonardo da Vinci, eu ficava imaginando como deveria ser, naquele tempo, os dois andando por Florença (Itália) a trocar ideias, com a visão matemática de um e a visão da arte do outro, e tudo aquilo sendo traduzido de forma tão singela, que são as Partidas Dobradas. A contabilidade Antoninho Trevisan, durante palestra no 20º Congresso Brasileiro de Contabilidade Acervo CFC me encantou, não por seu lado matemático, mas pelo poético. Desde sempre, passei a admirar e a ter emoção ao dizer “sou contador”, porque todas as vezes que eu digo isso eu sinto um pouco dessa história de Luca Pacioli e Leonardo da Vinci. Mais  tarde  eu  descobri  que o poeta português Fernando Pessoa era um apaixonado por contabilidade e, em um de seus textos, ele escreveu: “Tudo o que a vida me deu foram uns livros de contabilidade e o dom de sonhar”. Imagine, o maior poeta da língua portuguesa amava contabilidade. Ao longo desses mais de 50 anos de dedicação à profissão, eu também descobri que a contabilidade me permitiu um conhecimento profundo da Economia, do Direito e de outras áreas. Também entendi que a contabilidade suporta e sustenta a democracia. Não existe democracia sem contabilidade, porque ela é a ciência da verdade e da transparência. Quanto mais democrática é uma nação, mais a contabilidade floresce; quanto mais fechado, menos registros contábeis o país terá. Por que isso acontece? Porque é por meio da contabilidade que os cidadãos podem entender os orçamentos e as contas públicas e, com esse entendimento, votar com mais consciência.

RBC – O sr. atua, há muitos anos, na área de acadêmica, sendo fundador da Trevisan Escola de Negócios. De modo geral, como o sr. vê a formação atual dos cursos de Ciências Contábeis? Qual o principal enfoque que sua instituição tem dado à graduação na área?

Trevisan – O principal enfoque, antes de tudo, é a doutrina, ou seja, o entendimento daquilo em que a contabilidade se baseia para interpretar,  estabelecer métricas do patrimônio e do resultado. Na Trevisan Escola de Negócios, ensinamos o aluno a compreender não apenas a árvore em que está, mas a entender a floresta. Os alunos também têm a possibilidade de estudar a ciência dos dados e como utilizar as informações geradas pela contabilidade para poder tirar benefício e tomar decisões inteligentes. Na minha vida profissional, eu me orgulho muito de ter criado uma das melhores escolas de negócios com o curso de Ciências Contábeis, que recebeu nota máxima do Ministério da Educação (MEC). Além disso, também fundei uma das maiores empresas de auditoria e consultoria do País.

RBC – Qual a importância da educação continuada para os profissionais da área?

Trevisan – Se tem uma profissão que precisa que o profissional passe a sua vida estudando, esta é a profissão contábil. E isso acontece porque a contabilidade é dinâmica e se ajusta, seja do ponto de vista social, político ou econômico. O profissional precisa estar sempre estudando para permanecer atualizado e prestar um bom serviço. Quanto mais tempo atua na área, mais o profissional ganha experiência e conhecimento, que, juntamente com a atualização profissional, mantém os seus neurônios ativos e a sua mente leve e oxigenada. Lembro-me de uma ocasião, em 1984, em que o recém-nomeado ministro da Fazenda Francisco Dornelles me procurou para que eu lhe desse um curso de Contabilidade, antes que ele assumisse a pasta. Ele me disse: “Eu preciso aprender contabilidade; não posso assumir o ministério sem saber isso”. Muitos anos depois, o então senador Dornelles me procurou novamente para fazer outro curso de Contabilidade, e eu perguntei por que ele queria repetir o curso. Foi quando ele me disse: “Porque, além de aprender, eu oxigeno os meus neurônios e não esqueço as coisas, agora que já tenho mais de 80 anos”. A Contabilidade é uma ciência formidável, que deve ser aprendida mais a cada dia. A Medalha é cunhada em ouro e tem cinco centímetros de diâmetro. No anverso está a efígie do Patrono, com a inscrição Senador João Lyra

RBC – Nos últimos anos, tem havido algumas mudanças no mercado de trabalho em função do avanço  da  tecnologia  na  área  contábil. Como o sr. vê o mercado de trabalho atual para os contadores? E o sr. acredita que os contadores poderão ser substituídos por Inteligência Artificial e outros avanços tecnológicos?

Trevisan – Como tudo na vida, a contabilidade também se transforma, exatamente para continuar existindo. Por isso a profissão está aí desde Luca Pacioli, desde o século XV, e tanto fez florescer os negócios. Hoje, o que está mudando são as ferramentas que o contador utiliza para administrar, interpretar e entregar a sua visão da empresa – e não apenas para produzir relatórios, porque o contador faz muito mais do que isso. Ele é o detentor de um conhecimento amplo; defende e questiona posições; participa do comitê de auditoria, de conselhos fiscais e de administração; e dirige empresas. A ferramenta que ele usa para fazer isso se modifica, certamente, com o passar do tempo. O surgimento da internet foi um desses momentos. As mudanças sempre existiram, mas o contador sempre terá o seu espaço, porque o que muda são as ferramentas e instrumentos de trabalho.

RBC – Para o sr., que tem grande experiência na área, qual a importância das entidades de classe para o fortalecimento da profissão?

Trevisan – Eu tenho muita admiração pelos meus colegas que presidem entidades de classe, que são conselheiros, porque nenhuma profissão resiste se ela não tiver um centro que aglutine o pensamento, que defenda as cláusulas daquela comunidade, que possa transformar o conhecimento e disseminá-lo para a sociedade. A relevância das entidades de classe está exatamente em aglutinar, transformar, inovar e levar adiante a classe, para que ela possa ter valor para a sociedade. Mas é preciso registrar que uma entidade e uma classe só têm valor em uma sociedade, ou melhor, só são reconhecidas pela sociedade, caso os cidadãos percebam o seu valor.

RBC – Em fevereiro foi criada, no Congresso Nacional, uma comissão mista formada por deputados e senadores para propor um texto que concilie as propostas do Senado, da Câmara (PEC 45/19) e do governo. Qual a sua expectativa sobre a possibilidade de este ano ser concretizada uma reforma tributária no Brasil? Quais são as suas principais sugestões para reorganizar o sistema tributário do País?

Trevisan – Aos 70 anos de idade, já participei, pelo menos, de quatro tentativas de reforma tributária. Em uma dessas experiências, eu fiz parte de uma comissão de estudos criada pelo CFC, juntamente com outros colegas, dentre os quais destaco o Sérgio Approbato, porque eu me lembro de que íamos juntos de São Paulo para Brasília, para participar das reuniões, e já íamos discutindo as ideias. Naquela ocasião, o grupo elaborou um estudo que possibilitava que se criasse um imposto único – curiosamente, como está sendo sugerido no processo atual de tentativa de reforma tributária. A nossa visão era que, com um imposto de 10% sobre as transações, haveria recursos suficientes para que o País funcionasse. Hoje, no nosso entendimento, o imposto tem que ser simples, eficaz e precisa arrecadar com o menor custo possível. Porém, ao mesmo tempo, tem que ser republicano. Os impostos não existem para estabelecer movimentos na sociedade; precisam arrecadar de maneira igualitária para que, depois, na aplicação dos recursos, se possa fazer a justiça fiscal.

RBC – Do ponto de vista da sua vida pessoal, o que a Ciência Contábil lhe permitiu conhecer, compreender e, inclusive, contribuir para a definição de rumos profissionais?

Trevisan – A minha vida se confunde com a Ciência Contábil. Tropecei na contabilidade aos 13 anos, quando era office boy, e via o contador da empresa em que trabalhava rodeado de pessoas. Toda segunda-feira havia reuniões e vários funcionários se sentavam ao redor dele para buscar caminhos e conhecimentos. Naqueles momentos, eu me apaixonei pela Contabilidade. Também jamais me esqueci, quando estava no segundo ou terceiro ano do ginásio e uma professora perguntou para a turma o que cada um iria ser no futuro. Eu disse que queria ser contador, e a professora quis saber o porquê da minha escolha, e eu disse: ‘O meu chefe é contador e eu o admiro muito, não apenas pelo saber que ele tem, mas porque ele é muito admirado pelas moças do escritório’. Foi uma brincadeira, mas tinha também uma verdade nisso. Depois do ginásio eu fui fazer o curso Técnico em Contabilidade no Colégio Campos Sales. Em seguida, fui para a Pontifícia Universidade Católica (PUC) fazer Ciências Contábeis. A Contabilidade  me  permitiu  ser  tudo o que eu quis. Fui contador de uma empresa, fui auditor, dei aulas na Fundação Getúlio Vargas (FGV), escrevi livros e participei de diversos debates sobre reformas tributária e administrativa, sobre qualidade e privatizações, entre vários outros temas. A Contabilidade me permitiu ser percebido, de participar de congressos e de eventos, inclusive, de outras áreas. Eu sempre acreditei que, para ser um bom profissional, é importante não apenas conviver com outros profissionais da área, mas com o maior número possível de outras profissões. E eu convivi com músicos, artistas, cantores, poetas. Isso também a Contabilidade me permitiu. É curioso que, ainda hoje, quando vou ao dentista ou ao médico, muitas vezes, eles é que acabam me consultando sobre contabilidade. Sobretudo, a contabilidade me deu prestígio social e econômico, me abriu muitas portas. Talvez o que mais me permitiu crescer na contabilidade tenha sido afirmar, sempre com muito orgulho, ‘Sou contador!’

Fonte: Revista Brasileira de Contabilidade

Edição Janeiro/ Fevereiro 2020