CONEXÕES ACADÊMICAS
Temas emergentes na visão dos Profissionais da Contabilidade
Conteúdo:
Data: 22/fevereiro/2024
Horário: 16h as 17h30
Local: Ao Vivo no Youtube
Palestrantes:
Ahmad Abu Islaim
Contador formado pela Universidade de São Paulo, com mais de 15 de anos de experiência em grupos multinacionais de grande porte de diversos segmentos, tais como empresas de auditoria externa (Big four), indústria e varejo (KPMG, Grupo Unigel, Grupo Carrefour, CVC e Klabin).
Ricardo Tresso Marcolino
Foi gerente de auditoria independente pela KPMG e possui experiências em empresas de grande porte como Gerente executivo da Controladoria. Também é membro de conselho fiscal. Possu9i a graduação em Administração e em Ciências Contábeis, ambos pela FECAP-Fundação Álvares Penteado.
Moderação: Acadêmico da APC Flávio Riberi
A redução de exigências regulatórias para a divulgação de informações de sustentabilidade não significa que os riscos ambientais, sociais e econômicos deixaram de existir para as empresas. Esse foi um dos principais pontos do debate promovido pela Academia Paulista de Contabilidade -APC e pelo Conselho Regional de Contabilidade do Estado de São Paulo-CRCSP, que reuniu profissionais da Contabilidade e da Auditoria para discutir os novos caminhos da agenda ESG.
Participaram do encontro Viviane Bauer, sócia da área de Auditoria, Real Estate e Sustentabilidade da BDO Brasil e diretora-presidente do Ibracon na 5ª Seção Regional; Adriano Corrêa, Head da área de Estratégia, Corporate Finance e Data Analytics da BDO Brasil; o Acadêmico da APC Flávio Riberi; e Lilian Guizzi, conselheira do CRCSP.
A discussão também antecipou alguns dos temas do capítulo “ESG no Brasil: da Regulação à Estratégia e à Criação de Valor”, escrito por Viviane Bauer e Adriano Corrêa para o próximo livro da Academia Paulista de Contabilidade, com lançamento previsto para 11 de novembro.
Ao analisar as mudanças recentes na agenda regulatória, Adriano Corrêa destacou que o recuo de determinadas obrigações não elimina a necessidade de as organizações compreenderem os riscos capazes de afetar seus negócios. Para ele, a discussão precisa deixar de partir de listas genéricas de indicadores e considerar aquilo que realmente interfere nas decisões de cada empresa.
“Quais decisões ficam piores se eu não tiver uma informação confiável sobre esses temas?”, provocou.
Segundo Adriano, aspectos relacionados à sustentabilidade tornam-se estratégicos quando podem afetar receita, custos, ativos, passivos, financiamento, cadeia de suprimentos ou acesso a mercados. Por isso, a materialidade precisa ser analisada de acordo com o modelo de negócio, e não simplesmente reproduzida a partir das práticas de outras organizações.
Viviane Bauer reforçou que a eventual dispensa de publicação de um relatório não deveria interromper a produção das informações que dão sustentação a ele.
“Você pode até parar de publicar o relatório. Mas produzir a informação não deveria parar”, afirmou.
Para Viviane, dados, controles e governança precisam ser construídos ao longo do tempo. Além disso, mesmo empresas que não estejam diretamente sujeitas às exigências regulatórias podem receber demandas de clientes, instituições financeiras e integrantes de suas cadeias de valor.
Ao trazer a discussão para empresas de menor porte, Lilian Guizzi levantou a questão de como decisões aparentemente sustentáveis, como a substituição de uma frota por veículos elétricos, devem ser avaliadas na prática.
A resposta, segundo Adriano, passa novamente pela materialidade. Quilômetros percorridos, emissões associadas à fabricação dos veículos e destinação das baterias estão entre as variáveis que precisam entrar na análise. “Materialidade não é se você é grande ou pequeno”, observou.
Viviane acrescentou que a pressão pela informação pode surgir de fora da organização. Como exemplo, relatou o caso de uma transportadora do Mato Grosso que passou a ser questionada por um cliente sobre as emissões de CO₂ geradas na distribuição de seus produtos. A situação demonstra como as demandas de grandes organizações podem alcançar progressivamente toda a cadeia de valor.
A Inteligência Artificial também ganhou espaço no debate. Para Adriano, tarefas de alto volume e regras relativamente estáveis, como extração de dados, classificação de gastos, reconciliações e mapeamento de evidências, já oferecem oportunidades concretas de automação.
O cuidado aumenta, porém, quando a tecnologia participa de decisões capazes de produzir consequências relevantes para as pessoas. Nesses casos, transparência, capacidade de explicação e responsabilidade humana tornam-se indispensáveis.
“A IA é copiloto, nunca motorista principal nas decisões organizacionais”, resumiu Adriano.
O Acadêmico da APC Flávio Riberi acrescentou que o avanço tecnológico reforça, em vez de reduzir, a responsabilidade do profissional da Contabilidade. Para ele, ética, capacidade crítica e revisão humana precisam acompanhar o uso dessas ferramentas.
“A ética vai na frente de todas as outras”, afirmou. Flávio também destacou a responsabilidade técnica diretamente vinculada ao profissional contábil e defendeu a observância do Código de Ética da profissão. “Mais do que nunca, nós como profissionais temos que aderir 100% a esse Código”, disse.
Viviane Bauer, por sua vez, chamou a atenção para outro risco: utilizar a tecnologia sem conhecimento técnico suficiente para avaliar seus resultados. Segundo ela, a IA pode agilizar processos, mas não elimina a responsabilidade sobre aquilo que é produzido.
“A responsabilidade continua sendo do contador”, ressaltou.
Para Viviane, a incorporação das informações de sustentabilidade amplia o papel da própria Contabilidade. Esses dados podem antecipar efeitos que futuramente aparecerão no fluxo de caixa, no resultado e no balanço das organizações.
Nesse cenário, o contador passa a exercer papel ainda mais relevante na conexão entre sustentabilidade e finanças, contribuindo para a confiabilidade, a rastreabilidade e a interpretação das informações utilizadas na tomada de decisão.
Ao avaliar as discussões apresentadas no encontro, Lilian Guizzi destacou a importância de aproximar temas como sustentabilidade e Inteligência Artificial da realidade dos profissionais e das organizações.
“Olha quantos ensinamentos ricos que a gente teve aqui agora, quantos insights a gente conseguiu levar para o nosso dia a dia. Então, isso foi muito rico”, afirmou.
O debate serviu também como preparação para o lançamento do novo livro da Academia Paulista de Contabilidade. A publicação será lançada em 11 de novembro, em evento presencial no auditório do CRCSP, com participação de editores e autores e tarde de autógrafos. A versão digital será disponibilizada gratuitamente no site da APC.
Ao encerrar sua participação, Adriano deixou uma reflexão para empresas e profissionais sobre o desafio de conectar riscos, informações e responsabilidades nas decisões organizacionais.
“Que decisão efetivamente de captar o risco que a gente está tomando de uma forma pior, porque a gente ainda não conectou essa exposição, informação e responsabilidade?”, provocou.
Cobertura e texto: Danielle Ruas
Edição: Lenilde De Léon
De Léon Comunicações